
SÃO PAULO - Sondagem feita pela KPMG em evento com executivos financeiros de grandes empresas mostra uma divisão nas expectativas das companhias em relação ao impacto da Lei 11.638, que reforma a Lei da S.A. nos seus resultados contábeis. Segundo o levantamento, que ouviu 54 CFOs, 31% acham que o lucro aumentará, 39% consideram que ele diminuirá e 30% avaliam que o resultado permanecerá igual.
A pesquisa mostra ainda que, além da área financeira e contábil, os segmentos de tecnologia de informação e de recursos humanos das empresas devem ser os mais afetados pela nova lei, considerada o primeiro passo para o processo de convergência do padrão contábil brasileiro para o IFRS, regra usada internacionalmente.
De acordo com a sondagem, 61% dos executivos acreditam que o setor de TI das companhias será o mais afetado depois da própria área financeira e de contabilidade. Já 70% deles consideram que a "capacitação de pessoas" será o maior desafio para que as empresas tenham sucesso no atendimento da nova lei.
Ainda segundo a pesquisa da KPMG, a argumentação corrente de que publicar balanço de acordo com a norma internacional favorecerá a captação de recursos no exterior foi corroborada pela maior parte dos executivos. Do total dos consultados, 89% acreditam que a convergência com o IFRS facilitará a obtenção de crédito internacional. Como ponto negativo da lei, 70% dos executivos destacam que a não obrigatoriedade da publicação do balanço das empresas de grande porte fechadas "enfraquece o alcance" do objetivo principal da nova norma.
De acordo com Charles Krieck, sócio da KPMG, os executivos financeiros das empresas ainda possuem muitas dúvidas sobre a lei e principalmente sobre o que terão que fazer para aplicá-la. Entre as tarefas com as quais as empresas terão que lidar, ele cita a adequação dos sistemas e processos internos, o treinamento de pessoal, a eventual revisão da remuneração de profissionais, bem como nomeação de uma pessoa para coordenar o projeto de mudança contábil dentro da companhia. "Quem chegar primeiro, terá os melhores recursos", alerta Krieck, ressaltando que as empresas não devem esperar para começar o processo de adaptação.
Como um ponto que está atrasando o início do processo de revisão das práticas contábeis pelas companhias, Krieck destaca que ainda existem dúvidas sobre a aplicação da norma tanto do ponto de vista contábil, cuja regulamentação detalhada deve ser feita ao longo do ano pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), como do lado tributário, que deve ser objeto de regulação por pare da Receita Federal.
Segundo ele, as indefinições sobre a interpretação da nova lei têm afetado não apenas as questões contábeis, mas também decisões operacionais das companhias. "A mudança na contabilização do leasing afeta tanto a vida do fabricante de máquinas como a do arrendatário", exemplifica, argumentando que existem empresas adiando decisões de negócio por conta desta incerteza.
Outro ponto que tem causado dúvida para as empresas na condução dos seus negócios, segundo Gilberto Munhoz, também sócio da KPMG, é a questão do ágio. De acordo com ele, não está claro se será possível amortizar o ágio de aquisições de empresas incorporadas, o que interfere diretamente no preço das aquisições. "E a aquisição sem incorporação, como fica?", questiona Munhoz. Para ele, ainda que se argumente que a nova lei não deveria ter impacto tributário, no direito brasileiro vale o que está escrito e por isso não é possível ter segurança sobre o que vai ocorrer até que o fisco se pronuncie.
No início deste mês, ao anunciar a aquisição da Ágora Corretora, o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, afirmou que a intenção do banco era realizar logo a amortização do ágio da operação. No entanto, disse que aguardaria a nova regulamentação sobre o tema para definir o que fazer.
(Fernando Torres | Valor Online)